Ser pessoa é vaguear entre os opostos sem que para isso tenha de levantar o pé do chão. Tenho aprendido isso
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A palavra saudade é uma palavra muito estranha. Julgo que todas as palavras poderão ter mais do que um significado, mais do que uma interpretação, sendo que o interior de quem a profere ou sente apresenta um papel preponderante à significância da dita. Mas ainda assim, esta assume-me um caráter muito peculiar. Por saudade costuma entender-se a falta de alguém que nos falta, que por motivos diversos se encontra longe. O estranho é quando ela se dirige a alguém que está muito perto, mais precisamente, exatamente ao nosso lado. Ai necessitamos obviamente de realizar aquele exercício íntimo e de extrema eficácia, que trata a análise interna dos que nos estão próximos e de nós mesmos. Proximidade externa, nem sempre significa proximidade interna. E o oposto também poderá ser verdade. ”
“ Tem gente que me vê, mas não me enxerga. O âmago da essência queda soterrado abaixo dos escombros da pele. Não quero ser querida pela cor dos meus olhos, o cabelo, o corpo, o seio avantajado ou a carcaça de mulher vestindo uma criança. Quero ser querida por gostar de flores sem nunca ter sido presenteada com uma, por ser amorosa, por perdoar quando a falha despedaça, por gostar de cantar debaixo do chuveiro, errar a letra em inglês, por achar bonito o canto dos pássaros ou a voz de artista que ecoa no rádio; por usar roupas largas dentro de casa para sentir que tudo cabe dentro de mim, ou por gostar de tragédias românticas e ser uma, num amanhã distante. Porque eu observo em silêncio cada detalhe do rosto, para sentir o cheiro, prolongar o carinho, até a largura de um dedo e outro (você não sabe, mas fiz isso quando lhe vi). Porque eu permaneci em silêncio ao vê-lo, para quedar dois ou três minutos observando e absorvendo o sorriso acanhado e triste. Pela vontade em tocá-lo quando, p...

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