Tem gente que me vê, mas não me enxerga. O âmago da essência queda soterrado abaixo dos escombros da pele. Não quero ser querida pela cor dos meus olhos, o cabelo, o corpo, o seio avantajado ou a carcaça de mulher vestindo uma criança. Quero ser querida por gostar de flores sem nunca ter sido presenteada com uma, por ser amorosa, por perdoar quando a falha despedaça, por gostar de cantar debaixo do chuveiro, errar a letra em inglês, por achar bonito o canto dos pássaros ou a voz de artista que ecoa no rádio; por usar roupas largas dentro de casa para sentir que tudo cabe dentro de mim, ou por gostar de tragédias românticas e ser uma, num amanhã distante. Porque eu observo em silêncio cada detalhe do rosto, para sentir o cheiro, prolongar o carinho, até a largura de um dedo e outro (você não sabe, mas fiz isso quando lhe vi). Porque eu permaneci em silêncio ao vê-lo, para quedar dois ou três minutos observando e absorvendo o sorriso acanhado e triste. Pela vontade em tocá-lo quando, por uma bobagem dita, tu sorriste. Quero ser querida por alguém que me enxergue como sou. Um temporal sem relâmpago. Porque eu invento uma casa de madeira, vários cães e um gato; pus o teu sobrenome dele ao lado do meu para ver se soa bonito, coerente. Não quero que me veja, amor. Quero que me enxergue como um cego o faria. Toque a toque, pele a pele, gota a gota, alma a alma.
Camila M. Paiffer. 

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