“São essas dores silenciosas que invadem minh’alma bloqueando minha existência. Dores que quebram meu coração em tantos pedaços, centenas e centenas de vezes; não que eu venha a ser o culpado por uma lenta cura, talvez mesmo, por assim dizer, ele apenas se quebra com tanta facilidade que parar o tempo pra curá-lo não é válido. Coração que uma vez foi quebrado, jamais voltará a ser o mesmo, disso tenho certeza. Só que a vida não está disposta a te esperar; a esperar que cuide de cada machucado, de cada ferida, de cada lágrima. O tempo não irá parar para que tu enxugues suas lágrimas ou chore todas de uma só vez. A vida continua, segue como um rio, com percurso pré-definido. E por mais que essas lamentações venham a cortar teu coração como uma maldita lâmina absurdamente afiada, nada, nada vai parar para saber como você se sente. Como se tudo ao teu redor se tornasse escuro, sufocante, amargo demais. Em sua boca fica aquela sensação de sede que não passa, e não há água que a mate, nem mesmo outros beijos, outras bocas, outros olhares. Tudo se resume a esse seu estado de apodrecimento para o amor. Essa desgraçada invalidez das pernas, dos braços, dos toques, dos batimentos que se calam. O mundo prossegue com teu circo armado, palhaços e trapezistas; malabarismo de palavras e sentimentos; simples fotografias vazias. E suas lágrimas? Suas lágrimas são esquecidas, borram o rosto pálido, nu e sem vida. Algumas nem conseguem ser choradas de tão doloridas. São gritos abafados pelo medo de serem vistos como fracos. Dores que dilaceram seu corpo, e então, tu se pergunta? Amor é mesmo abstrato? Porque eu o sinto, eu o respiro, eu o beijo, eu o quero. Dor de amor não deveria ser sentida apenas na alma? Então, por que meu corpo reage como se estivesse em meio a uma batalha já perdida?
A vida perde a cor. Tu passas a se questionar se realmente merece ser amado. Perceba ao ponto em que se chega: questionar a si mesmo da valia do teu amor. É doentio, eu sei. Tudo fica estagnado, a Terra freia e o Universo particular das tuas fantasias entra em perfeito holocausto; um caos de amor; uma guerra civil dos teus sentimentos. Apenas porque teve seu coração pisoteado, massacrado, rendido por um colonizador que nem ao menos se importou se em tuas terras havia palmeiras, jacarandás, pessegueiros, jardins, botões de rosa esperando florescer. E como um trator, que passa por cima de tudo, deixa o cheiro de morte por tuas curvas, teus toques, seu mundo. Só que ninguém entende o quanto nos tornamos fracos, acabados. Há dias em que levantar da cama se torna uma luta épica, um conflito armado em querer morrer de uma vez. Afinal, morrer todas as noites e ressuscitar todas as manhãs, é cansativo, é penoso. Abrir os olhos e ainda permanecer dormindo, lutando pra que o sonho volte, que a realidade fique esperando na soleira da porta, que a tarde não bata em tua janela te chamando para o mundo; o sol apenas permaneça escondido. Ah, que tudo seja um eclipse eterno, sem escolher entre um e outro, sem ser luar ou raiar, sem precisar ser, apenas existir de uma forma ou de outra, levando os dias, as horas, em jangadas cheias de furos, sem remo, sem mapa, sem rota alguma, apenas navegando pra longe dessa ilha que chamo de dor. São conquistas improvisadas de uma luta diária. Degraus que não acabam, escada da vida que não dá em lugar algum, apenas subimos, subimos, cruzamos as nuvens, tocamos os pássaros, queremos voar, mas não somos agraciados com asas e então caímos; a maldita queda para o alto; alto da nossa própria e constante dor inexplicável. Quem somos? O que faremos? Como seremos? Ninguém sabe, nem mesmo nosso calejado coração despedaçado.”

Faah Bastos

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